abril 23 2019 0comment

Chorando alto – COLUNA DO DERICO

“Chorando Alto” de Derico Sciotti 

O chorinho é um estilo musical brasileiro cheio de ginga, charme e, principalmente, muito humor. Toca-se chorinho rindo, feliz, de bem com a vida, entre amigos! E não é por que é fácil não, aliás, muito pelo contrário! O chorinho é um dos estilos musicais mais difíceis de se tocar, tanto pelo lado técnico (um choro rápido, tipo “Brasileirinho”, “Espinha de Bacalhau”, “Apanhei-te Cavaquinho”, é para poucos!) quanto pelo lado interpretativo (melodias como “Rosa” e “Pedacinhos do Céu” são pérolas que, mal tocadas, transformam-se em ruínas sonoras!).

O chorinho vem de uma mistura rítmica, um “shake”, cujos ingredientes principais eram a polca, o maxixe, o lundu e a valsa, ritmos extremamente populares lá pelos idos de 1860. Esse “shake” começou a criar forma com Joaquim Antônio da Silva Callado, grande flautista e compositor que teve a ousadia de misturar Europa com África!

Daí veio uma leva de instrumentistas na cola de Joaquim Callado, como Chiquinha Gonzaga, pianista de mão cheia que, contra tudo e contra todos, cria um estilo próprio de tocar. Aos 18 anos, já casada, separada e mãe, vai para “a noite” em busca de paz para poder desenvolver seu talento musical, abafado pelo machismo reinante, tornando-se uma pioneira no chorinho. Compõe para o teatro de revista muitas das obras primas do chorinho, como “Gaúcho” ou “Corta-Jaca” (aliás, corta-jaca era como se chamava o chorinho, graças a forma como se dançava a música), gravada em 1904.

Mas quando surgiu, o chorinho não foi aceito de imediato. Muito se falou sobre ele, com críticas da estirpe de “amoral”, “chulo”, “feio”, “indecoroso”, era brabo o negócio! Quem tocava chorinho não eram somente músicos populares. Muitos músicos da escola erudita se renderam à sedução do chorinho como Ernesto Nazareth (compositor de “Apanhei-te Cavaquinho” citado acima, além de “Odeon”, “Brejeiro”) e a própria Chiquinha Gonzaga.

Foi quando surgiu Alfredo da Rocha Viana, um flautista que também era saxofonista que também era compositor que também era arranjador! Esse cara definiu os padrões do que hoje consideramos chorinho. Pixinguinha! Escreveu tudo! Tocou tudo! E tocou com todos, o que é melhor! O grupo “Os Oito Batutas” (que tinha Donga, outra fera!) radicalizou o estilo musical brasileiro, transformou a forma, se é que isso é correto se dizer!

A melodia “Rosa”, gravada em 1917 (mesmo ano em que compõe “Carinhoso”), o infernal choro “1×0” (homenagem ao escore da final da Copa Sulamericana de futebol, ganha pelo Brasil contra o Uruguai em 1919, gol de Friedenhich), “Lamento” (melodia que teve a letra composta por Vinícius de Moraes em 1960), todas imortais! Esse realmente revolucionou!

Nosso maestro, Villa-Lobos, compôs uma série intitulada “Choros”. São 12 chorinhos, para várias formações instrumentais, que alçaram o então estilo musical “chulo” à categoria de música de concerto!

Carmem Miranda cantou chorinho pelo mundo. Eternizou e popularizou internacionalmente “Tico-Tico no Fubá” de Zequinha de Abreu, tema composto em 1917, gravado por ela em 1939 e que virou trilha de desenho animado de Walt Disney!

Muitos outros músicos (instrumentistas e cantores) cresceram ao som do chorinho, divulgando e reformulando toda uma linguagem musical. Ademilde Fonseca, Orlando Silva, Anacleto de Medeiros, Altamiro Carrilho (um mestre até hoje!), Jacob do Bandolim (compositor de pérolas como “Assanhado”, “Noites Cariocas” e “Doce de Côco”), Waldir Azevedo (que compôs “Delicado”, além é claro, de nosso hino “Brasileirinho”), Paulinho da Viola, Armandinho, Henrique Cazes. Grupos como Época de Ouro, Os Novos Baianos, A Cor do Som, Nó em Pingo D’Água, Tira Poeira.

É tanta gente fazendo chorinho até hoje que fica difícil aceitar que seja um estilo ainda marginal, sem espaço, sem que se deixe ouvir em rádios, sem que se dê oportunidade ao povo brasileiro de curtir um estilo vigoroso, feliz, próprio!

Isso porque não falei do indaiatubano Nabor Pires Camargo, o nosso maestro! Ele merece uma coluna só pra ele…!

 

Derico Sciotti e seu irmão e diretor da Artlivre, Sérgio Sciotti, tocam o choro “1 x 0” de Pixinguinha.

Texto de Derico Sciotti.